Vacina contra herpes zóster e saúde cerebral: o que os estudos revelam
Estudos recentes indicam que a vacina contra o herpes zóster pode também ajudar a proteger o cérebro. Você vai conhecer as novas descobertas, o que isso pode significar para o futuro da prevenção da demência, pesquisas publicadas em renomadas revistas científicas como Nature, JAMA, Vaccine e Brain and Behavior, além de comentário editorial da Dra. Lilian Vidal.
VACINA CONTRA O HERPES ZOSTER
Dra. Lilian Vidal Rocha
7/6/2026

Ao longo das últimas décadas, cientistas têm buscado compreender como infecções virais podem contribuir para doenças neurodegenerativas. Um dos agentes em foco é o vírus varicela‑zóster, responsável pela catapora na infância e pelo herpes‑zóster, popularmente conhecido como “cobreiro”, doença que, embora seja mais comum em adultos, também pode se manifestar de forma rara em outras faixas etárias.
Após o primeiro contato com o vírus da catapora, o organismo elimina os sintomas agudos, mas o agente infeccioso permanece adormecido em gânglios nervosos próximos à medula e ao cérebro. Com o passar dos anos e a queda natural da imunidade, o vírus pode ser reativado, causando o quadro clínico de herpes‑zóster.
Quando o vírus varicela‑zóster se reativa, ele pode inflamar vasos do cérebro, alterar a circulação cerebral e favorecer o acúmulo de proteínas anormais, ligadas à degeneração dos neurônios. Esse processo inflamatório crônico tem sido considerado um possível elo entre infecções virais e o desenvolvimento de demências, como Alzheimer e demência vascular.
Com base nessa hipótese, pesquisas recentes têm avaliado se prevenir a reativação viral por meio da vacinação poderia também reduzir o risco de comprometimento cognitivo. Achados publicados em revistas de alto impacto, como Nature (2025), JAMA (2025), Vaccine (2024) e Brain and Behavior (2024), oferecem evidências consistentes sobre essa possível associação.
Estudo do País de Gales – Nature, 2025
Eyting M e colaboradores publicaram na Nature (2025) um estudo de grande alcance populacional usando um “experimento natural” criado involuntariamente pelo sistema de saúde do País de Gales. As regras de elegibilidade para vacinação eram definidas pela data de nascimento, permitindo comparar pessoas praticamente idênticas em idade e perfil clínico, mas com diferentes oportunidades de receber a imunização.
Essa organização permitiu duas análises: primeiro, medir a proteção direta contra o herpes zóster; depois, avaliar se a vacina também reduziria novos diagnósticos de demência. Durante sete anos de acompanhamento, observou‑se redução de 37% dos casos de herpes zóster e 20% menos diagnósticos de demência, especialmente entre mulheres. O estudo ainda apontou que o efeito não se devia a variações em outras doenças crônicas, mas possivelmente à própria prevenção das reativações virais.
Estudo australiano – JAMA, 2025
No mesmo ano, Pomirchy M et al. publicaram no JAMA (2025) o resultado de uma ampla análise envolvendo o National Herpes Zoster Immunisation Program da Austrália.
Esse programa nacional, criado em 2016 pelo governo australiano, oferece a vacina contra o herpes zóster gratuitamente para pessoas entre 70 e 79 anos, enquanto outras faixas etárias permanecem ineligíveis. Essa característica forneceu um contexto ideal para avaliar, em condições reais, a possível relação entre vacinação e risco de demência, pois os grupos comparados tinham idade e perfil de saúde muito similares.
A pesquisa analisou mais de 101 mil australianos seguidos por 7,4 anos. A elegibilidade para a vacinação associou‑se a redução de 1,8 ponto percentual no risco de demência e também confirmou o benefício direto contra o herpes zóster.
Importante ressaltar que o estudo não identificou diferença relevante em outras condições crônicas, como doenças cardiovasculares ou diabetes, fortalecendo a hipótese específica de proteção neurológica.
Estudo norte-americano – Vaccine, 2024
Tang E e colaboradores, em artigo publicado na Vaccine (2024), analisaram 4,5 milhões de adultos imunocompetentes nos Estados Unidos vacinados com a formulação recombinante Shingrix (GSK).
Após ajuste para idade, sexo e outras variáveis, os resultados mostraram que duas doses da vacina reduziram o risco de demência em 32%, enquanto uma única dose reduziu em 11%.
Além disso, o estudo observou que pessoas que tiveram herpes zóster antes da imunização apresentaram risco maior de demência, mas aquelas tratadas com antivirais tiveram risco menor, indicando que o controle da infecção ativa pode contribuir para preservar a função cerebral a longo prazo.
Revisão sistemática e meta-análise – Brain and Behavior, 2024
Reunindo os principais achados da literatura, Shah S et al. publicaram uma revisão sistemática com meta‑análise em Brain and Behavior (2024), incluindo quatro estudos observacionais de boa qualidade metodológica e 941.991 pessoas vacinadas.
A análise revelou uma redução média de 24% no risco de demência entre vacinados, embora com variação entre países, sugerindo influência de fatores populacionais e de cobertura vacinal.
Interpretação dos achados
Tomados em conjunto, os estudos indicam um padrão consistente: populações vacinadas contra o herpes zóster apresentam taxas menores de demência em acompanhamentos de médio prazo (cinco a sete anos). A hipótese biológica mais plausível é que a imunização reduza reativações virais e inflamações persistentes, que por sua vez causariam ou acelerariam processos degenerativos cerebrais.
Ainda assim, os pesquisadores reconhecem que há necessidade de ensaios clínicos especificamente desenhados para avaliar essa relação de causa e efeito.
Até o momento, as recomendações médicas para a vacina continuam baseadas no benefício comprovado de prevenir o herpes zóster e suas complicações, em especial a neuralgia pós‑herpética.
Situação no Brasil
No Brasil, a vacina contra o herpes zóster disponível na rede privada é a versão recombinante de subunidade adjuvada, conhecida como Shingrix (GSK).
A indicação leva em conta a idade, as condições de saúde e o uso de medicamentos que reduzem a imunidade. Diretrizes internacionais, como as do CDC e da OMS, recomendam a vacinação principalmente para pessoas a partir de 50 anos, idosos que revisam o calendário vacinal, indivíduos imunossuprimidos ou portadores de doenças crônicas.
Dados do DATASUS mostram que, entre 2008 e 2024, houve 85.888 atendimentos e 30.801 internações por herpes zóster no país, evidenciando a importância da prevenção.
Comentário editorial da Dra. Lilian Vidal
Os avanços científicos apontam que a vacinação contra o herpes zóster pode trazer benefícios adicionais à saúde neurológica, embora as evidências atuais sejam observacionais.
O conjunto dos estudos (Nature 2025, JAMA 2025, Vaccine 2024 e Brain and Behavior 2024) consolida uma tendência promissora: a prevenção das reativações do vírus varicela‑zóster pode contribuir para reduzir inflamações cerebrais e, possivelmente, retardar processos neurodegenerativos.
As evidências disponíveis reforçam um conceito fascinante: o impacto das vacinas pode ir além da prevenção de infecções, alcançando potenciais efeitos protetores sobre o cérebro.
Embora ainda não haja comprovação causal entre a vacina contra o herpes zóster e a redução da demência, o conjunto de dados epidemiológicos é consistente e biologicamente plausível.
A ciência avança rapidamente nesse campo, e acompanhar esses achados é essencial para compreender como estratégias imunológicas poderão influenciar a saúde cognitiva nas próximas décadas.
Trata‑se de um campo em rápida evolução, com implicações relevantes tanto para a saúde pública quanto para a compreensão das conexões entre infecção, imunidade e envelhecimento cerebral.
Fontes científicas
Eyting M et al. A natural experiment on the effect of herpes zoster vaccination on dementia. Nature, 2025. doi.org/10.1038/s41586‑025‑08800‑x
Pomirchy M et al. Herpes zoster vaccination and dementia occurrence. JAMA, 2025. doi.org/10.1001/jama.2025.5013
Tang E et al. Recombinant zoster vaccine and the risk of dementia. Vaccine, 2024. doi.org/10.1016/j.vaccine.2024.126673
Shah S et al. Herpes zoster vaccination and risk of dementia: a systematic review and meta‑analysis. Brain and Behavior, 2024. doi.org/10.1002/brb3.3474
Ministério da Saúde – DATASUS, SIA/SUS e SIH/SUS
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