Polilaminina: O que Sabemos Até Agora Sobre Essa Descoberta Brasileira

A polilaminina é uma das linhas de pesquisa mais promissoras da medicina regenerativa no Brasil. Neste artigo, a Dra. Lilian destaca quase 30 anos de ciência desenvolvida em universidade pública, resultados que têm despertado interesse e merece ser acompanhado com cuidado, ressaltando a relevância do trabalho da pesquisadora Tatiana.

PESQUISA BRASILEIRA

Dra. Lilian Vidal Rocha

3/19/2026

Nos últimos meses, a polilaminina virou assunto em consultas, grupos de família e redes sociais. Como médica, recebi perguntas sobre ela e achei importante trazer aqui o que a ciência diz até o momento com honestidade, sem exageros e sem minimizar o que é genuinamente promissor.

A história por trás dessa pesquisa merece ser contada com cuidado. A professora Tatiana Sampaio, bióloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicou quase três décadas ao estudo da laminina, uma proteína que o próprio organismo produz e que participa de processos fundamentais como o crescimento e a reconexão de células nervosas. Esse trabalho silencioso, construído dentro de uma universidade pública ao longo de anos, é o que está hoje no centro de uma das pesquisas mais comentadas da medicina regenerativa no Brasil.

A polilaminina é uma versão modificada dessa proteína, desenvolvida em laboratório para ser mais estável e potente. Quando aplicada diretamente na medula lesionada durante a cirurgia, ela age como uma espécie de andaime biológico, criando um ambiente mais favorável para que os axônios, as estruturas dos neurônios rompidas na lesão, possam voltar a crescer. Após um trauma medular, forma-se uma cicatriz com moléculas que bloqueiam essa regeneração. A polilaminina ajuda a tornar esse ambiente menos hostil.

Em um estudo piloto com oito pacientes com lesão medular completa, o tipo mais grave seis apresentaram alguma recuperação de movimentos ao longo de um ano de acompanhamento, passando do grau A para o grau C ou D na escala de avaliação neurológica utilizada pela medicina. Para se ter uma ideia do que isso representa, a taxa de recuperação espontânea nesse tipo de lesão é descrita na literatura como inferior a 15%.

Esses resultados chamam atenção, mas é importante entendê-los no contexto correto. O estudo foi divulgado como pré-print, uma versão preliminar que ainda não passou pela revisão formal de outros pesquisadores. O número de participantes é pequeno, não havia grupo controle, e não é possível isolar com precisão o quanto da melhora veio da polilaminina e o quanto veio da cirurgia, da fisioterapia intensa ou da evolução natural da lesão. A própria pesquisadora reconhece que o artigo passará por revisões e ajustes antes de ser submetido a uma revista científica.

Em janeiro de 2026, a ANVISA autorizou o início do estudo clínico de fase 1, um marco importante. Nessa etapa, cinco voluntários entre 18 e 72 anos, com lesões torácicas completas entre T2 e T10 ocorridas há menos de 72 horas, receberão a polilaminina durante a cirurgia em ambiente controlado. O foco agora não é provar eficácia, mas confirmar segurança. Esse processo é conduzido em parceria com instituições como o Hospital das Clínicas da USP, a Santa Casa de São Paulo e a AACD, responsável pela reabilitação dos participantes.

Um ponto que merece atenção: algumas pessoas têm recorrido à Justiça para receber a polilaminina fora de qualquer protocolo de pesquisa. A professora Tatiana e especialistas da Academia Brasileira de Neurologia expressam preocupação com esse caminho, não só pelos riscos que o uso fora de monitoramento pode trazer, mas porque pacientes tratados dessa forma não terão acompanhamento sistemático, o que também compromete a pesquisa que pode beneficiar muitas outras pessoas no futuro.

Outro ponto importante: até o momento, os estudos em humanos envolvem apenas lesões agudas, aplicadas nas primeiras 72 horas após o trauma. Não há evidência científica do benefício da polilaminina em lesões crônicas, aquelas com mais tempo de evolução em seres humanos.

Torcer pela polilaminina é torcer por quase 30 anos de ciência brasileira construída com persistência dentro de uma universidade pública. E a melhor forma de apoiar essa pesquisa é respeitar o processo que vai garantir que ela chegue, com segurança, a quem mais precisa.

Conteúdo informativo baseado em fontes públicas da ANVISA e do Ministério da Saúde. Não substitui orientação médica individualizada. Consulte sempre um profissional de saúde.

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